S. Kiyotaka & Omega Tribe: o pop clássico do verão está de volta

Prestes a completar 40 anos de estreia, grupo musical de city pop revive seus grandes sucessos em versões remix | Foto: Divulgação/VAP

Em 2023, a banda musical de city pop Kiyotaka Sugiyama & Omega Tribe (ou S. Kiyotaka & Omega Tribe) completa 40 anos. E sem perder tempo, um projeto de celebração do aniversário está em andamento, desde o final de 2021, com lançamentos de seus álbuns em versões remix. O conjunto foi um dos grandes sucessos da música japonesa nos anos 80 e hoje conquista uma nova geração através das plataformas digitais. Conheça a trajetória até os dias de hoje:

Do sonho de mangaká à influência dos Beatles

O estiloso vocalista Kiyotaka Sugiyama nos anos 80 | Foto: Divulgação

Tudo começou com o vocalista Kiyotaka Sugiyama, que tinha um sonho de infância de ser um mangaká profissional, mas que se dedicou ao mundo da música. Seu interesse pela música começou ainda em sua época de quinta série, quando visitou um amigo e o irmão dele ouvia os Beatles. Fascinado pelo som do quarteto de Liverpool, Sugiyama pediu emprestado o tal disco para ouvir em sua casa. Seu interesse foi crescendo e ele economizou dinheiro para adquirir Let It Be, o último álbum dos Beatles, lançado em 1970.

Em 1978, Sugiyama já cursava o ensino médio e, por incentivo de seu professor da escola preparatória, entrou para uma banda de rock amadora chamada Tony Taguchi & Cutie Panchos, formada pelo baixista e líder Masato “Tony” Taguchi (também conhecido como “Tacohe”) e os guitarristas Kenji Yoshida e Shinji Takashima. A banda tinha mais de 10 integrantes na época de sua fundação, sendo composta por membros de uma casa de shows em Yokohama, incluindo o baterista Keiichi Hiroishi e os backing vocals Kumiko Nagasawa e Kimiko Mohri. A maioria deles ainda estava no ensino médio.

A banda mudou de nome no ano seguinte, simplesmente para Cutie Panchos. Taguchi se juntou a outra banda chamada Larry’s Papa, sendo o baixista desta e também de Cutie Panchos. O tecladista Akira Senju também se juntou à banda quando alguns membros saíram.

Em 7 de outubro de 1979, o vocalista Kiyotaka Sugiyama escreveu e compôs a música My Life, que foi apresentada na 18ª edição do Yamaha Popular Song Contest – conhecido como Popcon. Cutie Panchos retornou na edição seguinte do concurso, em 11 de maio de 1980, com a música Gospel no Yoru, que rendeu um prêmio no Popcon. Mais tarde, a banda ainda participou da 20ª edição do Popcon, em 5 de outubro de 1980, com a música Nori Okureta 747, que foi escrita por Goro Matsui.

Último álbum dos Beatles, Let It Be foi uma das influências para Sugiyama entrar no mundo da música | Foto: Divulgação/Apple

Apesar de ter ganhado na edição anterior, Cutie Panchos não venceu desta vez. Em caso de vitória, uma estreia profissional estaria mais fácil para a banda. Isso sem contar que muitos dos membros, incluindo Sugiyama, ficaram insatisfeitos com a qualidade de Nori Okureta 747 e chegaram a recusar uma grande oferta.

Como a banda não estreou, Senju saiu da banda em dezembro para entrar na Universidade Keio e na Universidade de Artes de Tóquio. Um ano depois, Nagasawa e Mohri saíram para formar outra banda chamada Sugar com Miki Kasamatsu.

Em 1982, o baixista Takao Oshima, que conhecia o Popcon e anteriormente fazia parte da banda Trial Spot, se juntou ao Cutie Panchos. O tecladista Toshitsugu Nishihara, que atuava no Yamaha Hiyoshi Center, perto da Universidade Keio, foi escolhido como substituto de Senju.

Tanto a vitória quanto o receio da banda em estrear profissionalmente chamaram a atenção do produtor Koichi Fujita (1947~2009), que assistiu ao grupo durante suas atividades subsequentes em casa de shows. Fujita já havia sido guitarrista das bandas The Love (de 1966 a 1967) e Out Cast (de 1968 a 1969), e atuava como produtor e presidente da Triangle Productions. Ele ofereceu ao Cutie Panchos um acordo que os ajudaria a estrear se eles tocassem uma música feita por um compositor profissional em vez de outras feitas por eles mesmos, além de se afastarem do som do rock. Sugiyama ainda recebeu a oferta de ser cantor solo, mas preferiu permanecer na banda como líder.

O caminho para o amanhã sem perder a riqueza de ontem

O sexteto liderado por Kiyotaka Sugiyama | Foto: Divulgação/VAP

Antes da estreia nacional, a banda Cutie Panchos precisava ser rebatizada. O DJ americano Kamasami Kong – que já atuou em rádios do Japão e do Havaí – sugeriu o nome Omega Tribe, com o intuito de dar aos integrantes algo “futuricamente primitivo” e com a intenção de “ajudá-los a liderar o caminho para o amanhã sem perder a riqueza de ontem”.

O nome estava no final da lista de sugestões, pois Sugiyama havia sugerido o nome “Tixe” (uma grafia inversa da palavra “exit”, saída em inglês) e foi apreciada pelos demais integrantes. Mas o produtor Fujita bateu o martelo ao escolher Omega Tribe, pois ele gostou de inserir a última letra do alfabeto grego, além da palavra Tribe (tribo em inglês).

Assim, Fujita interpretava o nome da banda como “a última companhia para as últimas pessoas, e você pode olhar para o início da próxima era”. Ele não havia gostado do nome “Tixe”, pois lhe dava uma sensação de uma “cor travada”. Dando mais ênfase ao vocalista, a banda foi batizada como Kiyotaka Sugiyama & Omega Tribe, podendo também ser estilizada como S. Kiyotaka & Omega Tribe.

Responsável pelo batismo da banda, o DJ americano Kamasami Kong foi o locutor do álbum DJ Special | Foto: Divulgação

A partir daí, Tetsuji Hayashi, compositor bastante influente na música pop japonesa na década de 1980, escreveu Umikaze Tsushin e AD 1959, mas Fujita acabou rejeitando as duas canções por serem parecidas com músicas das bandas americanas como Journey, Orleans e Boston. Fujita queria algo mais triste com uma “melodia doméstica”, e depois de ouvir a voz de Sugiyama, começou a escrever uma nova música com seu letrista Chinfa Kan, que no caso era Summer Suspicion, o primeiro single da banda, com lançamento marcado para 21 de abril de 1983.

Menos de um mês antes da estreia oficial como banda, mais precisamente em 27 de março daquele ano, S. Kiyotaka & Omega Tribe tocaram Summer Suspicion no 12º Festival de Música de Tóquio, onde também o grande cantor americano Lionel Richie (ex-vocalista da banda Commodores) se apresentou. O single foi bem recebido pelo público japonês, devido à sua atmosfera tropical. Mas Summer Suspicion vendeu apenas cerca de 260 mil cópias e ficou em 9º lugar nas paradas da Oricon.

Apesar da estreia mediana, a gravadora VAP não deixou de apoiar a banda, apostou em seu potencial e fechou contratos com a emissora Nippon TV para que S. Kiyotaka & Omega Tribe se apresentasse. A banda começara a produção do primeiro álbum, intitulado Aqua City, com Hayashi fazendo a maior parte da composição. Kan e o colega letrista Yasushi Akimoto escreveram para o álbum com Tsugutoshi Goto e Ken Shiguma ajudando no arranjo.

Lançado em 21 de setembro de 1983, Aqua City tinha como objetivo criar uma nova identidade para Omega Tribe, se tornando uma banda pop de verão e utilizando elementos da estação como praia, mar, jangadas, coqueiros, pôr do sol, etc. O álbum ficou em 4º lugar nas paradas da Oricon.

Já no dia 21 de outubro, a banda lançou o segundo single Asphalt Lady, que teve um aumento nas vendas inicialmente, mas estacionou depois de 60 mil cópias vendidas e ficando na 32ª posição nas paradas – número bastante inferior ao Summer Suspicion. A produção achou que a música era “mais japonesa do que a música de estreia” e não tinha a atmosfera de verão que muitos ouviram em seu primeiro single e álbum.

Ficha técnica da formação original do Omega Tribe | Foto: Divulgação

Foi daí que então a equipe começou a trabalhar no próximo single, Kimi no Heart wa Marine Blue, que teria o tema do oceano. O mesmo foi lançado em 21 de janeiro de 1984 e foi escrita por Kan e Hayashi, tendo em mente a imagem do verão e da juventude. Durante a gravação, Fujita expressou desapontamento com Sugiyama, pois o cantor não conseguia acertar o tom para a imagem. Sugiyama regravou partes da música várias vezes para acertar os vocais.

Após o lançamento, Kimi no Heart wa Marine Blue chegou ao 12º lugar nas paradas com 249 mil cópias vendidas. A música também foi usada como abertura para o dorama Toshigoro Kazoku, da TBS. Os dois últimos singles de então foram incluídos no segundo álbum, River’s Island, que adotou uma abordagem diferente em seu som, imitando o estilo da Costa Oeste dos EUA com a imagem de uma cidade. Lançado em 21 de março de 1984, o álbum teve boa repercussão, ficando em terceiro lugar nas paradas da Oricon.

Omega Tribe não perdeu tempo e passou a trabalhar em seu terceiro álbum, Never Ending Summer, para 21 de dezembro de 1984. Enquanto isso, o single Riverside Hotel foi lançado dois meses antes, em 21 de outubro, e ficou em 21º lugar, tendo um resultado abaixo de Kimi no Heart wa Marine Blue. O álbum Never Ending Summer também não teve um bom resultado, ficando em 8º lugar nas paradas, porém superou em termos de vendas. Curiosamente, Sugiyama compôs as músicas do lado A do disco, exceto Riverside Hotel, que foi assinado por Kan. As quatro músicas do lado B foram compostas por Hayashi e escritas por Akimoto.

Assista ao especial de vídeo Single Vacation (de 1984), com clipes de algumas canções de Aqua City e River’s Island, os dois primeiros álbuns de S. Kiyotaka & Omega Tribe:

O ano da despedida

Em 6 de março de 1985, o single Futari no Natsu Monogatari – Never Ending Summer foi lançado e teve uma curiosa parceria comercial com a Japan Airlines. É que a canção foi inspirada num slogan publicitário feito pelo próprio Hayashi. Ele começou a escrever e compor a música em dois dias, enquanto os membros estavam em turnê e eles tiveram apenas uma pausa de apenas um dia para gravar a música.

Futari no Natsu Monogatari – Never Ending Summer se tornou o disco de maior sucesso de S. Kiyotaka & Omega Tribe, ficando em 4º lugar nas paradas da Oricon e vendendo mais de 10 mil cópias. Mas no auge da banda, Sugiyama propôs a separação da banda, pois ele queria seguir carreira solo.

Embora o sexteto tivesse bom relacionamento, Oshima, Hiroishi e Yoshida percebiam o desconforto dos produtores, que faziam a maior parte do trabalho e eles concordaram em se separar. Mas Takashima e Nishihara foram contra o fim da banda. Em consenso, os integrantes decidiram que fosse lançado um álbum de compilação e que eles se separariam no final daquele ano.

S. Kiyotaka & Omega Tribe começou então a produzir seu quarto álbum, Another Summer, que reduziu o som orquestral e de metais, aderindo os sintetizadores Moog Polymoog e Yamaha DX7. Em abril, durante a produção, o guitarrista Keiji Yoshida deixou a banda por ficar impaciente com a separação.

Single’s History foi o primeiro álbum compilatório da carreira de S. Kiyotaka & Omega Tribe | Divulgação/VAP

As gravações de Another Summer finalizaram em 20 de maio e no dia seguinte foi lançado o disco Kamasami Kong DJ Special, com locução do próprio disc jockey americano Kong, que apresentava algumas músicas dos álbuns Aqua City e River’s Island – com direito a vinhetas da estação de rádio havaiana KIKI, de Honolulu. Em tempo, no dia 29 do mesmo mês, foi lançado o penúltimo single Silence ga Ippai.

Another Summer finalmente foi lançado em 1º de julho de 1985 e ficou em 1º lugar nas paradas da Oricon. Este mesmo álbum contou com a participação da cantora Rajie, na música You’re A Lady, I’m A Man.

Fujita soube da decisão por Sugiyama e, embora triste, concordou em deixá-los se separar. O produtor, que havia obtido sucesso com a então estreante cantora Momoko Kikuchi, ainda frisou que os demais integrantes estariam livres para deixar o Omega Tribe e quem quisesse ficar poderia seguir com um novo vocalista.

Em 4 de outubro de 1985, a banda S. Kiyotaka & Omege Tribe iniciava sua última turnê para divulgar o álbum compilatório Single’s History, lançado no dia 23 do mesmo mês. Hayashi já sabia da separação da banda por parte de Fujita e tentou convencer Sugiyama, numa noite, para tentar prolongar o tempo da banda, uma vez que eles tinham discos de sucesso e uma carreira consolidada. Mas Sugiyama manteve sua decisão. Foi então que Hayashi pediu para que a banda gravasse um último álbum para os fãs, com o título First Finale.

Capa do LD First Finale Concert | Foto: Reprodução

Nesse meio tempo, o último single, chamado Glass no Palm Tree, foi lançado em 7 de novembro. Segundo Fujita, a música foi uma resposta para Summer Suspicion. Glass no Palm Tree foi outra canção a ter uma parceria comercial, desta vez com a empresa de café DyDo.

First Finale foi lançado em 11 de dezembro durante a turnê de despedida de S. Kiyotaka & Omega Tribe, se tornando mais um álbum a atingir o topo de vendas. A banda chegou ao fim oficialmente em 24 de dezembro, após uma apresentação no Tokyo Shinjuku Welfare Pension Hall. Os fãs puderam conferir o show de despedida também através do álbum Live Emotion, de 1986. Curiosamente, a narração foi feita por duas mulheres, sendo que uma delas era a cantora Yuko Yanagisawa, irmã do comediante Shingo Yanagisawa e então esposa de Sugiyama.

Com o fim da banda S. Kiyotaka & Omega Tribe, Fujita escolheu o cantor nipo-brasileiro Carlos Toshiki para liderar uma nova formação, chamada inicialmente como 1986 Omega Tribe (e posteriormente como Carlos Toshiki & Omega Tribe). Mas isso é assunto para outro texto…

Veja na íntegra o concerto First Finale, que encerra a fase clássica de S. Kiyotaka & Omega Tribe:

De volta ao passado

Apesar da proposta de Sugiyama em separar a banda para sempre, os integrantes retomaram em fevereiro de 2004, a pedido do próprio cantor. Eles realizaram shows pelo Japão para reviver seus grandes sucessos. A banda comemorou 35 anos com o show The open air live “High & High 2018” e seguiu realizando turnê pelo país durante o ano seguinte.

S. Kiyotaka & Omega Tribe completa 40 anos de fundação em 2023. Com isso, a gravadora VAP está lançando versões remix de seus álbuns. O primeiro foi Aqua City Remix, lançamento de 29 de setembro de 2021 que trouxe todas as 9 faixas do primeiro álbum remasterizadas e com novos arranjos, além de incluir uma nova versão do clássico Summer Suspicion.

E nesta quarta (23) foi a vez do lançamento de River’s Island Remix, com todas as 9 músicas do segundo álbum remasterizadas e incluindo uma faixa bônus: versão especial de Saigo No Night Flight, que foi intitulada como Saigo No Night Flight 86. Vale registrar também que as faixas Asphalt LadyKimi no Heart wa Marine Blue ficaram disponíveis dias antes em plataformas digitais como Spotify.

Se você é daqueles que curte a cultura pop japonesa e é amante da boa música, vale a dica para conferir a discografia de S. Kiyotaka & Omega Tribe. Os clássicos da banda são tão bons, mas tão bons que o ouvinte vai querer bis. O legado da banda continua e continuará transcendendo o tempo. Imperdível!

Confira os trechos dos álbuns Aqua City Remix e River’s Island Remix:

Veja também o lyric video do single Asphalt Lady (remix):

Autor: César Filho

Radialista. É autor do Blog Daileon e escreve semanalmente uma coluna sobre tokusatsu para o site JBox. Em Fortaleza, apresentou palestras em eventos como Sana e Anime Master entre 2013 e 2017. É fã de produções live action com efeitos especiais, principalmente das franquias Metal Hero, Ultraman e Kamen Rider. É admirador declarado pela cantora Yumi Matsuzawa.

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