Última série Metal Hero no Brasil, Solbrain completa 25 anos de estreia na extinta Manchete

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O trio de resgate Soljeanne, Soldozer e Solbraver | Divulgação

Sem dúvida alguma, Winspector é um dos clássicos da franquia Metal Hero que marcou a criançada que assistia a programação da saudosa Rede Manchete, lá na longínqua década de 1990. Há exatos 25 anos, a emissora carioca lançava a continuação do Esquadrão Especial. Apesar de não ser a grande favorita dos fãs brasileiros de tokusatsu, Solbrain é uma das melhores séries que já passaram por aqui – e merece uma devida atenção em pleno 2020.

Quem assistiu aos episódios finais de Winspector, deve lembrar que o Chefe Shunsuke Masaki (interpretado pelo respeitável Hiroshi Miyauchi) estava criando uma nova equipe de policia e resgate, para substituir o time formado por Fire, Biker (Bikel), Highter (Walter) e cia, que foi transferido para a Interpol. Só que Masaki sentia que faltava um objetivo para a nova equipe. Tal foi encontrado após o fracasso do último plano do Dr. Kuroda: salvar a alma e o coração dos homens. Com isso, a nova equipe de resgate não apenas surgiu como uma evolução do antigo departamento de polícia, mas também teve um princípio de combater a criminalidade sem abominar o homem, que precisa se regenerar e voltar à sociedade com dignidade.

Assista o primeiro episódio no canal Toei Tokusatsu (com legendas em inglês):

A temática de Solbrain é superior ao Winspector. É que a série anterior experimentou um padrão de séries tokusatsu que até então não existia. Provavelmente por isso que os primeiros episódios apresentavam bandidos com planos meio bobos. A qualidade foi melhorando e os enredos ficaram mais sisudos e reflexivos. Em Solbrain, os episódios foram mais estruturados e os enredos eram mais profundos. A carga dramática era mais intensa em certas ocasiões. As explosões em quase todo final de episódio eram bem clichês, mas eram a graça da série (e um pretexto pra vender brinquedos).

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A união de Fire e Solbraver | Divulgação

A segunda equipe comandada por Masaki conta com a bravura de Daiki Nishio, um policial que carrega um grande senso de justiça e uma recíproca confiança pelo chefe. No clímax de cada missão, ele veste o Solid Suit azul e assume o codinome Solbraver. Ao seu lado está a bela Reiko Higuchi, que veste o Solid Suit vermelho e atende como Soljeanne, sempre com equipamentos de primeiros socorros. Ao contrário do Classtector, a armadura de Fire em Winspector, que tinha limite de tempo, os Solid Suits de Braver e Jeanne tinham um sistema de resfriamento interno. Soldozer é o único robô da equipe. A ingenuidade pode ser sua imperfeição, mas o grandalhão possui uma grande força, além da capacidade de se transformar numa espécie de escavadeira. Além dos heróis principais, a Super Equipe de Resgate é formada pelo esquentadinho Jun Masuda, o técnico atrapalhado Kamekichi Togawa, o supercomputador Cross-8000, e tripulação do oficial-piloto Takeshi Yazawa, da nave-mãe Solid Saver 1 (Solid Stares-I).

Um dos grandes momentos da série é o arco triplo que trouxe de volta Liuma Ogawa (Ryouma Kagawa), o comandante Fire de Winspector, que estava numa missão secreta. Também apareceram a dupla robótica Biker e Highter. Winspector e Solbrain lutaram juntos para deter Messayer (Messiah), um robô com capacidade de se transformar em qualquer ser humano, além de ter uma bomba implantada em seu corpo. Para selar a união das duas equipes, Solbraver recebe a Giga Stream (Giga Streamer), a arma mais poderosa de Fire.

Mais tarde, Liuma retorna como Knight Fire, um guerreiro com um Solid Suit vermelho que possui visual e armas similares aos de Braver. A então nova dupla inaugura o canhão gêmeo Nitro Gun (Pile Tornado), que possui três modos de ataque. Nesse momento, surge o grande vilão da trama: Ryuichi Takaoka. Ele desafia Solbrain e sempre provocava o ódio de Daiki, algo que vai contra a máxima de Solbrain: “O policial deve odiar o crime, não deve odiar o homem.“.

No fim da série, a equipe estava com os dias contados e tinha apenas dois meses para prender Takaoka, que planejou um ataque friamente calculado para destruí-la. Enquanto isso, uma reprodução em massa do Solid Suit de Solbraver estava concluída para policiais de todo o Japão. Descobre-se que Takaoka foi fundido a um supercomputador que sustenta o seu ódio contra os homens. Após a última missão, o Solbrain foi dissolvido. Daiki, Reiko e Jun foram transferidos para diferentes cidades do Japão. Uma nova equipe se preparava para entrar no combate contra o crime.

DO JAPÃO PARA O BRASIL

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Knight Fire (à dir.) se une à dupla Jeanne e Braver | Divulgação

Exibido originalmente nas manhãs de domingo da TV Asahi, entre 20 de janeiro de 1991 e 26 de janeiro de 1992, Solbrain teve a média de 12.2% em audiência. Um pouco abaixo de Winspector (com 12.8%), mas superior aos clássicos como Jaspion (11.8%). Uma boa receptividade do público japonês. A série é resultado do sucesso de Winspector, que foi uma aposta do falecido produtor Nagafumi Hori (1934~2005) de usar elementos de seriados policiais japoneses, onde os heróis tinham que prender os bandidos ao invés de matá-los a qualquer custo.

Um detalhe que pode incomodar os fãs mais detalhistas é que Winspector teve várias menções confirmando que a trama era ambientada em 1999. Só que a Toei acabou fazendo uma retcon (continuidade retroativa) em Solbrain, com várias citações que confirmavam que a série se passava mesmo em 1991. Originalmente, a saga das equipes do Chefe Masaki terminaria em Solbrain. Tokusou Exceedraft (inédita no Brasil) começou como uma série isolada, mas acabou formando uma trilogia com as duas séries anteriores. Masaki aparece nos últimos três episódios de Exceedraft na luta contra Iwao Daimon, a encarnação do demônio na Terra, que também é análogo ao Takaoka. As séries Rescue Police, inclusive, foram interpretadas pelo tenor dos animesong, Takayuki Miyauchi.

Graças ao sucesso de Winspector, Solbrain foi adquirido pela Tikara Filmes (extinta distribuidora do sr. Toshihiko Egashira). A extinta fabricante de brinquedos Glasslite deu apoio financeiro para o lançamento dos produtos da série. A Tikara ainda contou com a consultoria da dupla Marcelo Del Greco e Alexandre Nagado, que na época eram redatores da extinta revista Herói. Del Greco chegou a escrever as sinopses dos volumes em VHS, pelo selo Intermovies, que infelizmente descontinuou a coleção.

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Exceedraft, o fim da trilogia Rescue Police | Divulgação

Com temas de abertura e encerramento cantados em português por Luigi Carneiro (o mesmo de Yu Yu Hakusho), Solbrain foi a última série Metal Hero exibida no Brasil e a penúltima série tokusatsu lançada na saudosa Manchete. Sua estreia aconteceu às 17h40 do dia 12 de junho de 1995, na Sessão Super-Heróis. Ficou na programação até o final de 1997, junto com Kamen Rider Black RX.  Infelizmente, Exceedraft não teve a chance de vir para o Brasil. O mercado de séries tokusatsu estava saturado e perdendo para o boom dos animês na TV aberta. Uma pena, pois perdemos a chance de ver essa ótima série e outras como Janperson e Blue SWAT.

Por sinal, a Manchete, que pertencia à uma família judia e já exibia cenas truculentas de Cavaleiros, também não teve problemas em exibir dois episódios polêmicos. Um deles era o episódio 38, que tratava sobre nazismo e possessão demoníaca. Isso sem contar que o mesmo tinha cenas de suicídio de crianças e até várias aparições da suástica (vejam vocês, algumas delas até desenhada com sangue). Dizem que o episódio foi banido em alguns países fora do Japão, mas isso foi uma exceção para a emissora carioca. O outro era o episódio 41, onde um dos bandidos jogou um copo de uísque contra um pôster do piloto Ayrton Senna, e ainda o chamou de “imbecil” (o piloto já era falecido quando a série estreou no Brasil). Ou seja, são duas situações que provavelmente jamais seriam reapresentadas na TV brasileira nos dias de hoje (por causa do politicamente correto). Controvérsias à parte, devemos considerar que jamais se tratou de apologia e/ou ofensa, respectivamente, por parte da Toei.

A dublagem foi realizada pela Mastersound, que manteve os saudosos Emerson Camargo e Daoiz Cabezudo como Narrador e Chefe Masaki, respectivamente. Marcelo Campos voltou a interpretar Liuma Ogawa, além de Hermes Baroli como Biker. Afonso Amanjones, que havia emprestado sua voz para Highter em Winspector, dublou Daiki/Braver. Por isso, o robô voador da antiga equipe teve que ser dublado por Cassius Romero, que mais tarde interpretou Takaoka. Reiko/Jeanne foi dublada por Letícia Quinto (anteriormente dublou Yuki Ogawa, a irmã de Liuma), Dozer foi dublado por Araken Saldanha (Cassius e Mestre Ancião em Os Cavaleiros do Zodíaco) e Jun Masuda por Paulo Porto (anteriormente foi a segunda voz de Demitaz em Winspector). Nota-se que haviam constantes repetições das vozes de Tânia Gaidarji (Bulma em Dragon Ball), Tatá Guarnieri (Metalder na série homônima e Kenshin em Samurai X) e Fábio Moura (Shura de Capricórnio em Cavaleiros e o primeiro narrador de Pokémon).

Solbrain é uma serie meio esquecida e subestimada pelos fãs brasileiros. Vale a pena dar (mais) uma chance e ver que o enredo ainda carrega princípios que devem ser refletidos e absorvidos em qualquer época. É um clássico que fala muito mais sobre a natureza humana do que qualquer outro cult da época.

Curiosidades sobre o elenco

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Mitsue Mori como a bela policial Reiko Higuchi | Divulgação
  • Solbrain foi a única série tokusatsu em que o ator Koichi Nakayama (Daiki/Braver) estrelou. Deixou o meio artístico em 2005.
  • A atriz Mitsue Mori (Reiko/Jeanne) apareceu em dois episódios de Blue SWAT, como personagens distintas, e nunca mais apareceu numa produção de tokusatsu.
  • Hidenori Iura (Jun Masuda) encerrou sua carreira após a série, em 1992. O ex-ator e ex-cantor é lembrado por interpretar Tetsuya, um dos membros do Computer Boys & Girls em Goggle Five (de 1982). Além disso, ele participou também em Kamen Rider Super-1, Batten Robomaru e Bioman.
  • Mitsuru Onodera (Kamekichi), além de ator, também é cantor na terra do sol nascente.
  • Seizo Kato foi a voz original de Soldozer. Ele atuou em dublagens de várias series de animê e tokusatsu. Vale citar suas atuações como Alien Mefilas em Ultraman, Bazoo em Changeman, Zeba em Maskman e General Jark em Kamen Rider Black RX. Faleceu em janeiro de 2014, aos 86 anos, vítima de câncer de bexiga.

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    Mayuko Irie como Midori Aikawa | Reprodução
  • A atriz e modelo Mayuko Irie apareceu nos dois primeiros episódios como Midori Aikawa, uma supervisora de operações da Solid Saver-I. Em 2005, ela aparece no episódio 30 de Kamen Rider Hibiki como a mãe de Kyosuke Kiriya/Kamen Rider Kyoki.
  • Masaki Terasoma (Takaoka e a voz original de Cross-8000) participou como ator em episódios de clássicos como Fiveman e Jetman, Zyuranger, Exceedraft, etc. Atua como dublador em séries de animê e tokusatsu e é mais conhecido como a voz original do vilão Shadow Moon em Kamen Rider Black e Kamen Rider Black RX. Participou do episódio 14 de Winspector como Takeda.
  • Hiroshi Miyauchi (Chefe Masaki) é um veterano do gênero tokusatsu desde 1973, quando estrelou como o herói-título Kamen Rider V3. Dentre várias participações, destacamos: Ao Ranger em Gorenger (1975), Big One em JAKQ (1977), Ken Hayakawa em Zubat (1977), Chefe Miura em Ohranger (1995), além de uma participação especial no drama Tokusatsu Gagaga (2019). No Brasil, Miyauchi também pôde ser visto nos episódios 30 e 31 de Gavan como o Policial do Espaço Alan.

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    Daiki e Liuma testando as armas Nitro Gun | Reprodução
  • Masaru Yamashita (Liuma/Knight Fire) está afastado do meio artístico. Mas recentemente apareceu numa publicação ao lado do diretor Koichi Sakamoto. Indicando a possibilidade do ator reprisar o papel de Fire numa sequência da série de filmes Space Squad, que reúne heróis das franquias Metal Hero e Super Sentai. O ator faz uma breve aparição no filme Kamen Rider ZO (de 1993).
  • Solbrain teve participações de atores conhecidos de outras séries. Junichi Haruta (MacGaren em Jaspion), Akira Ishihama (Dr. Tokimura em Flashman e Yanagida em Jiban), Ayumi Taguchi (Satie em Kamen Rider Black), Kazuoki Takahashi (Change Griffon em Changeman), Ami Kawaii (Marshall em Jiban e Scorpina em Power Rangers), entre outros.

Autor: César Filho

Radialista. É autor do Blog Daileon e escreve semanalmente uma coluna sobre tokusatsu para o site JBox. Em Fortaleza, apresentou palestras em eventos como Sana e Anime Master entre 2013 e 2017. É fã de produções live action com efeitos especiais, principalmente das franquias Metal Hero, Ultraman e Kamen Rider. É admirador declarado pela cantora Yumi Matsuzawa.

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