Eliana é inocente, mas seu programa era um péssimo espaço para Ultraman Tiga

tiga
Ultraman Tiga era exibido nas manhãs da Record.

Se tem um capítulo na história do tokusatsu na TV brasileira que ficou obscuro por muito tempo, esse é sobre Ultraman Tiga na Record. Por muitos tempo pensávamos que a apresentadora Eliana fosse a responsável pelo cancelamento da série na primeira semana de maio de 2000, quando faltavam apenas quatro episódios para finalizar a saga de Daigo Madoka e seus companheiros da GUTS.

Então, a tal lenda urbana teve fim nesta terça (21) em mais um vídeo do canal TokuDoc, onde meu amigo Danilo Modolo entrevistou Marcelo Del Greco. Nada melhor que o próprio para desmistificar essa história. O atual supervisor de conteúdo da Editora JBC esteve envolvido nos bastidores do licenciamento de Ultraman Tiga e tinha planos para trazer Ultraman Dyna e Ultraman Gaia e até pacote de clássicos com a volta de Ultra Seven e O Regresso de Ultraman e o inédito Ultraman Ace. Planos que infelizmente foram de água abaixo por causa da queda de audiência (assista o vídeo para entender o caso).

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Não vou me deter nos trâmites de negociação, já que é assunto interno dos envolvidos. Mas vou fazer uma breve análise de programação, que é o assunto deste espaço.

Os horários que Del Greco tinha em mente eram viáveis. Se Ultraman Tiga passasse próximo da hora do almoço, poderia ter tido mais sucesso que teve na faixa das 10h30 da manhã. Ou melhor, poderia manter os sete pontos ou talvez obter um pouco mais que isso. Pokémon era exibido depois das 11h e a série tokusatsu poderia pegar carona. Incrivelmente, Tiga tinha mais audiência que Ash, Pikachu e cia. Mas não tinha popularidade, bom horário e a mesma divulgação que o anime carro-chefe da emissora do bispo.

Eu diria mais: Tiga estava num programa errado e absolutamente não fazia o perfil do Eliana & Cia. A trama era séria demais para ficar ao lado piadas e situações sem graça da atração matinal. Claro que isso não é culpa do Del Greco, nem da distribuidora Mundial. Foi um erro de estratégia da Record naquela época.

Não estou dizendo que é oficial, mas provavelmente a inconstância da própria faixa contribuiu para o cancelamento de Tiga na Record. Você que assistia na época deve se lembrar a dureza que era ter que aguentar o Chiquinho (personagem interpretado por Edilson Oliveira) enchendo linguiça pra “segurar” a audiência com suas palhaçadas sem graça e fazendo caricaturas pavorosas da apresentadora, não é? Além do mais, Tiga começava com 5 ou 10 minutos de atraso, na maioria das vezes. Eram raras as vezes que começavam mais cedo que a hora anunciada na programação.

Mas falta de espaço e opção não era motivo para a Record. Tiga saiu do ar pela primeira vez no dia 3 de maio de 2000 (quarta). Como pode ser observado na programação desse mesmo dia, por exemplo, tinha espaço para séries infanto juvenil no começo da tarde, inclusive reprises de Pokémon. Mas a grade vespertina já era apertada por causa do Note e Anote e do Cidade Alerta. Sem contar o embargo e a burocracia nos bastidores que impediram que a luz de Ultra brilhasse de vez na TV brasileira.

crossover
Tiga saiu do ar antes do episódio com a participação do Ultraman original.

Não digo que Ultraman Tiga estava numa emissora errada. Pois se assim fosse, Pokémon não teria se tornado o fenômeno que foi. Acredito que se a Manchete ainda estivesse no ar – e obviamente não sofresse os efeitos da crise que a extinguiu, a emissora carioca seria uma bela opção para acolher a série nos fins de tarde e/ou em horário nobre. Porém, a TV aberta já não tinha mais esse tipo de referência de programação. A não ser em canais de TV por assinatura (que exibiam animes nesse tipo de faixa). Só restava apostar primeiro no horário matinal e arriscar o espaço numa faixa que não condizia em nada com o estilo dramático da série, nem muito menos com um palhaço que contava piadas insossas.

Final prematuro e irônico para um grande super-herói japonês. A lacuna segue aberta.

Autor: César Filho

Radialista. É autor do Blog Daileon e escreve semanalmente uma coluna sobre tokusatsu para o site JBox. Em Fortaleza, apresentou palestras em eventos como Sana e Anime Master entre 2013 e 2017. É fã de produções live action com efeitos especiais, principalmente das franquias Metal Hero, Ultraman e Kamen Rider. É admirador declarado pela cantora Yumi Matsuzawa.

2 comentários em “Eliana é inocente, mas seu programa era um péssimo espaço para Ultraman Tiga”

  1. No Japão Ultraman tem a mesma importância que Star Wars como uma franquia que agrada crianças e adultos ,mas aqui o preconceito com tokusatsu torna difícil conseguir horários melhores, mesmo que séries como Hércules,Xena e The Lost World que a Record exibia ás tardes tinham momentos bizarros de fazer inveja as séries japonesas( mas isso fazia parte do charme).

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  2. KKKKKK Sintetizou bem o sentimento de nós crianças daquela época. Aquela enrolação sem graça que os programas faziam até os desenhos era angustiante. Acho que só a Globo sabia fazer a façanha bem no programa Bambuluá, dito por muitos um tokusatsu nacional.

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