20 anos sem Manchete: o último suspiro dos heróis japoneses

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Carro-chefe, Yu Yu Hakusho se destacava na programação infanto-juvenil da Manchete

Na data de hoje em 1999, acontecia uma curiosa troca de bastões entre as gerações que acompanharam as séries japonesas na TV brasileira. Foi no dia 10 de maio daquele ano que estreava, pela Record, o anime Pokémon. Um fenômeno que surgiu nas nossas telinhas depois do boom d’Os Cavaleiros do Zodíaco. Também foi o último dia da extinta Rede Manchete sob o comando dos Bloch. Foram quase 16 anos de história. A partir daquele ponto começava a transição para a Rede TV!, pelo grupo Tele TV. Entre reprises e programação loteada por infomerciais, apenas duas séries de anime e duas de tokusatsu acompanharam a via crucis que a Manchete passava. Relembre os momentos:

Antes da crise

O ano de 1998 começou com as exibições de Yu Yu Hakusho e Supercampeões nas respectivas faixas das 19h e 19h30. Samurai Warriors era reprisado no lugar da aventura futebolísticas de Oliver Tsubasa a partir de 5 de janeiro. Outros programas infanto-juvenis ainda estavam no ar. Eram estes: Flash Gordon (17h), Dragon Flyz (17h30), Clube da Criança (18h), Vila do Tiririca (18h30) e WMAC Masters (20h).

Em 9 de março, a Vila do Tiririca muda de horário para as 9h30 (saiu do ar em poucas semanas e a Sessão Animada ocupou o horário). Enquanto isso, a faixa das 18h30 foi ocupado pela volta de Supercampeões. Em 23 de março estreavam o Manchete Clip Show (às 19h), o polêmico Magdalena Manchete Verdade (19h30) e o Feras da Copa (20h). Com isso, Flash Gordon ainda era mantido às 17h, mas Dragon Flyz saia da faixa das 17h30 e era substituído pelo Clube da Criança (que estava começando mais cedo). Yu Yu Hakusho e Supercampeões eram exibidos às 18h e 18h30, respectivamente. Samurai Warriors e WMAC Masters deixaram de ser exibidos desde então.

A programação infanto-juvenil estava reduzida em abril de 1998. Além da Sessão Animada às 9h30, era possível encontrar o Clube da Criança às 18h. Na faixa da 18h30 acontecia um revezamento: Supercampeões era exibido às segundas, quartas e sextas e Yu Yu Hakusho às terças e quintas. Aos domingos a programação de desenhos era formada assim: Sessão Animada às 8h45, Flash Gordon às 9h, Dragon Flyz às 9h30, Yu Yu Hakusho às 10h e Supercampeões às 10h30. Veja uma amostra dessa fase aqui.

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Oliver Tsubasa e o time Nankatsu em Supercampeões

Em maio, Supercampeões já era exibido de segunda à sexta às 18h30 e ficou até o fim da copa. Sendo o único anime durante a semana. A dobradinha com Yu Yu Hakusho continuava aos domingos.

O jornal Manchete Primeira Mão estava previsto para ir ao ar ainda em julho, após a Copa, às 18h30. Mas sua estreia aconteceu em 17 de agosto. Yu Yu Hakusho serviu de tapa-buraco no mesmo horário entre 13 de julho e 14 de agosto. Retornou à programação diária em 2 de outubro (dia seguinte do final do Horário Político) às 18h, substituindo o Clube da Criança. A última exibição de Supercampeões acontecia na manhã do dia 27 de setembro (domingo) às 9h30 da manhã.

Entendendo a crise

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O famoso “M” no topo do Edifício Manchete | Divulgação

Em 1998, a Manchete tinha dívidas contraídas de anos anteriores. Mesmo assim, a emissora apostou na inovação com programas de variedades, a execução de três horários do Jornal da Manchete e mais a estreia do Manchete Primeira Mão, entre outras atrações como o Domingo Total e Madaglena Manchete Verdade. A programação da Manchete também estava voltada para a Copa do Mundo na França.

A novela Mandacarú passava por problemas com a direção de Walter Avancini e alguns personagens saíram e foram substituídos por outros. Avancini aguardava sinal verde para a produção da novela A Queridinha, que seria exibido às 20h e estrelado por Debby (apresentadora da derradeira fase do Clube da Criança). Porém a novela Brida foi aprovada para substituir Mandacarú. Parte do elenco da novela reclamou na Justiça por atrasos de salários. Tais problemas fizeram com que a novela fosse alongada por mais alguns meses. Mandacarú estreou em 12 de agosto de 1997 e finalizou em 8 de agosto de 1998. Totalizando 259 capítulos.

Inicialmente prevista para estrear em maio de 1998, a novela Brida, baseada na obra de Paulo Coelho, estreou às 21h40 do dia 11 de agosto (terça-feira). Programada para terminar em junho de 1999, não passava de três pontos de audiência. Um número abaixo da média de suas antecessoras. Tentando popularizar, a Manchete criou em setembro um horário alternativo para a novela na faixa das 19h, mas não ficou muito tempo no ar.

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As combalidas reprises de Shurato marcaram o fim da Manchete

Os altos investimentos de Brida acarretaram no atrasos de salários dos funcionários da Manchete. Ainda em agosto, o Domingo Total saiu do ar um mês antes do previsto (estava programado para ocupar a programação de abril a setembro de 1998) e foi substituído pelo bloco Festival Manchete de Cinema. Uma crise começava a se instalar na emissora e programas foram afetados e até mesmo a Bloch Editores. Walter Avancini teve que demitir parte de sua equipe, mantendo o elenco principal de Brida (curiosamente, o jornalista Augusto Xavier fazia parte do triângulo amoroso da trama).

Em outubro, a jornalista Márcia Peltier e os apresentadores Raul Gil e Magdalena Bonfigliolli saíram da Manchete. A novela Brida já estava com os capítulos contados. Foram 54 ao todo e seu “final” foi ao ar em 23 de outubro (sexta-feira). Na realidade, o último capítulo contou com a narração de Eloy Decarlo, o lendário locutor-padrão da Manchete, onde ele resumia o que aconteceria na novela, caso prosseguisse, e revelando prematuramente o final. Um vexame para teledramaturgia da Manchete que acabara de forma melancólica.

Em 26 de outubro (segunda), Pantanal voltava a ser reprisada. A Manchete apostou no maior sucesso de sua história para tentar recuperar, de alguma forma, seu faturamento. Na primeira semana, a trama atingiu 7 pontos de audiência. Nesse mesmo dia, iniciava a chamada “programação de emergência” formada basicamente por reprises, infomerciais e programas religiosos. Alguns programas da casa como Mulher de Hoje (com Claudete Troiano), Manchete Primeira Mão e Jornal da Manchete ainda estavam em exibição.

O prazo final para a Manchete quitar suas dívidas era 18 de maio de 1999. Caso isso não acontecesse, as concessões se tornariam peremptas (não-renováveis).

Programação de emergência

Substituindo Magdalena Manchete Verdade, o anime Shurato voltava oficialmente à programação às 19h30 em 26 de outubro de 1998. Já Yu Yu Hakusho mudava de horário: às 20h.

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A reestreia de Jiraiya pegou de surpresa os fãs de tokusatsu

Em 7 de dezembro, o Manchete Primeira Mão ganhava mais 15 minutos de duração. Com isso, às 19h15 também retornava à emissora carioca outro grande sucesso: Jiraiya. Shurato e Yu Yu Hakusho foram adiados em 15 minutos, sendo apresentados respectivamente às 19h45 e 20h15.

Em 31 de dezembro de 1998, a Manchete assinava um acordo com a RGC (Rede Gospel de Comunicação), pertencente à Igreja Renascer. A parceria seria, teoricamente, a salvação da emissora e que a prolongaria por mais 15 anos. Com isso, um slogan irônico surgia: “Nova Manchete/ Tudo novo no verão 99“. Na realidade essa mudança se consistia na volta de alguns programas que estavam fora do ar como o Jornal da Manchete, o Pra Valer (apresentado por Celso Russomanno) às 20h e os ajustes de horários de programas que ainda estavam no ar.

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A promessa de uma “nova” Manchete | Reprodução/Folha de S. Paulo

A então nova programação (que nem era tão nova assim) começou em 18 de janeiro de 1999. Desde então, Jiraiya, Shurato e Yu Yu Hakusho eram exibidos necessariamente nessa mesma ordem em dois horários: das 11h às 12h30 e das 18h30 às 20h. Sem contar os horários alternativos aos sábados e domingos.

Porém a programação reservava outra surpresa para os fãs de tokusatsu. Sem aviso, Maskman retornava à Manchete. Sendo a última série japonesa a ter uma reestreia na emissora. O Super Sentai de 1987 voltou no dia 23 de janeiro e inicialmente era exibido aos sábados às 20h e aos domingos às 19h.

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Maskman foi a última série tokusatsu reprisada na Manchete

A Manchete não havia programado exibição do Desfile das Escolas de Samba daquele ano, uma vez que o carnaval é contra os princípios da fé evangélica. Os Bloch romperam o contrato com a Renascer em 12 de fevereiro por “descumprimento de cláusulas contratuais”, segundo comunicado lido no Jornal da Manchete. Era sexta-feira de carnaval e a programação seguiria normalmente. Porém, o programa Mulher de Hoje não foi apresentado nos dias 15, 16 e 17 de fevereiro. A faixa vespertina da Manchete foi mantida nos dois últimos dias do carnaval e mais na quarta-feira de cinzas por uma dobradinha de Maskman (das 15h às 16h) e compacto de edições anteriores do carnaval. A medida era emergencial. A Manchete havia exibido apenas os seis primeiros episódios de Maskman até então e o restante dos episódios foram liberados após a folia.

O fim da parceria dos Bloch com a Renascer e também a saída de Claudete Troiano deixaram a programação da Manchete desestabilizada a partir de março. Basicamente a grade se resumia à programação religiosa pela manhã, infomerciais intercalados com as séries japonesas e mais o Manchete Clip Show. O horário nobre seguia com as exibições dos programas Pra Valer (19h45), Jornal da Manchete (20h45), Pantanal (21h15), Se Liga Brasil, (22h15) Frente a Frente (23h) e Estilo Ramy (23h30).

Quanto às series japonesas: Jiraiya passava às 9h30 e às 17h15. Shurato às 10h e às 17h45 (dois episódios no fim de tarde). Yu Yu Hakusho às 10h30 e às 18h45 (também com dois episódios no fim de tarde). Maskman era a série “isolada” da programação e era exibida com dois episódios das 12h às 13h. A programação seguiu assim até 31 de maio, três semanas após à venda da Manchete.

Desmistificando a transição

Após semanas de negociações, a Rede Manchete foi vendida definitivamente para o grupo TeleTV às 14h de 9 de maio de 1999, domingo das mães. Faltando apenas 9 dias para o prazo final para a renovação das concessões. Foi em 10 de maio daquele ano que o extinto Ministério das Comunicações recebeu os termos do contrato de compra e venda da emissora, além do pedido de transferência direta do controle.

Em 12 de maio, o Grupo Bloch e a TV Ômega (nome fantasia dada à emissora durante a transferência de concessão) informaram através de comunicado à imprensa sobre a formalização da transferência de controle realizada dois dias antes. Veja:

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Comunicado oficial sobre a venda da Manchete | Reprodução/Jornal do Brasil

Existem por aí algumas replicações da Wikipédia afirmando que a última veiculação das vinhetas da Manchete e a troca de nome aconteceram ainda em 10 de maio de 1999*. Porém não foi assim e certamente você a de concordar que nada surge da noite pro dia. Por isso aqui vale ressaltar aqui considerações importantes.

Segundo o livro Rede Manchete – Aconteceu, Virou História, do pesquisador Elmo Francfort, mesmo com a transição em curso, as últimas vinhetas da (então chamada) antiga Manchete foram exibidas em 17 de maio de 1999, um dia depois da transmissão da vitória de Guga na final do Torneio Master Series (Super 9) de Roma. Foi nessa data que a venda foi concluída, mediante decreto publicado no Diário Oficial da União, com a assinatura do então presidente Fernando Henrique Cardoso. A partir do dia seguinte a emissora operava sem identificação e o Jornal da Manchete era rebatizado como Primeira Edição (mantendo a mesma equipe de jornalistas e até o tema do antigo noticiário). Apesar de melancólico, o processo foi natural.

*Nota: a data de extinção da Manchete está correta, uma vez que houve a formalização da venda para o grupo TeleTV. Como pode ser observado no comunicado oficial, a emissora já era referida como “antiga Rede Manchete”.

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Sob nova direção, a (antiga) Manchete transmitiu a final do Torneio Master Series de Roma em 16 de maio de 1999 | Reprodução/Jornal do Brasil

A emissora ficou como emissora “fantasma” entre os dias 18 e 28 de maio de 1999. Na noite do dia 27 de maio foi escolhido o então novo nome da Manchete. Através de uma pesquisa realizada pela agência de publicidade FischerAmérica, o nome escolhido, dentre seis opções apresentadas, foi Rede TV!. Note que a grafia ainda era oficialmente separada. Já o nome TV! nada mais era que a estilização da RedeTV! durante a fase de transição. O nome foi veiculado pela primeira vez na emissora em 29 de maio. Algumas fontes informam que aconteceu no dia seguinte, quando houve o primeiro anúncio veiculado em jornais de circulação.

Nesse período, a emissora exibia o torneio de tênis Roland Garros, que ocorreu entre 24 de maio e 6 de junho de 1999. O novo nome foi anunciado durante uma partida de Gustavo Kuerten. Além das chamadas do torneio com a voz de Eloy Decarlo citando RedeTV!. Era o fim da parceria da empresa de promoções esportivas Koch Tavares com a ex-Manchete.

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O nome Rede TV! só foi escolhido duas semanas depois da venda da Manchete | Reprodução/Folha de S.Paulo

Inicialmente permaneceram os programas Clip Show (outrora Manchete Clip Show), Pra Valer (com Celso Russomano), a reprise da novela PantanalSe Liga Brasil (com Carlos Chagas), Mexe Brasil, Programa de Domingo e Show Business (com João Doria). Alguns programas deixaram de ser exibidos gradativamente. Curiosamente voltaram, como tapa-buraco da programação da RedeTV!, especiais musicais exibidos pela Manchete (substituindo Pantanal, Mexe Brasil e Programa de Domingo) e até mesmo o esportivo Toque de Bola (nas noites de domingo).

Sobre as séries japonesas, elas foram as mais judiadas pela então nova administração. Em 1 de junho, todas as séries passaram a ter dois horários. Mas com o passar das semanas, a programação mudava a ponto dos títulos ficarem dispersos no meio de uma enxurrada de infomerciais. Talvez a fase mais “saudosa” por quem tentava assistir Jiraiya, Shurato, Maskman e Yu Yu Hakusho era entre setembro e outubro, quando foram reprisadas pela última vez.

Outra lenda “wikipediana” diz que as séries japonesas chegaram a ser exibidas entre 23h e 0h e que estavam na programação apenas nos dois primeiros meses de transição. Na realidade elas nunca passaram tarde da noite (que pena) e saíram do ar numa manhã de domingo, 31 de outubro de 1999. Deu tempo para o último episódio de Yu Yu Hakusho ir ao ar mais uma vez, de Shurato descarregar mais uma reprise enjoante, porém Jiraiya e Maskman ficaram mesmo sem final.

Para saber mais detalhes dessa grade inconstante da RedeTV! em fase experimental, escrevi esse post onde mostro todos horários de todos os programas naqueles fatídicos seis meses.

A TV do ano 2000 não viu a chegada do novo milênio e ainda faz uma tremenda falta para quem assistia. Se a Manchete ainda estivesse no ar, talvez ainda teríamos reprises e até exibições de séries inéditas de anime e tokusatsu. Belos tempos que não voltarão jamais…

PS: Na minha coluna no site JBox escrevi sobre as últimas e agonizantes reprises de Jiraiya e Maskman na Manchete e na RedeTV!.

*Agradecimentos ao amigo Matheus “Dyna Black” Mossmann (do blog Dynablack Asylum).

Autor: César Filho

Radialista. É autor do Blog Daileon e escreve semanalmente uma coluna sobre tokusatsu para o site JBox. Em Fortaleza, apresentou palestras em eventos como Sana e Anime Master entre 2013 e 2017. É fã de produções live action com efeitos especiais, principalmente das franquias Metal Hero, Ultraman e Kamen Rider. É admirador declarado pela cantora Yumi Matsuzawa.

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